Sandra Edler

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Average rating: 4.14 · 37 ratings · 4 reviews · 3 distinct worksSimilar authors
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Olhos de Serpente

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Quotes by Sandra Edler  (?)
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“Em seu texto Inibição, sintoma e angústia (1926), Freud observa que os estados depressivos se manifestam através de uma inibição generalizada. Estabelece uma diferenciação entre a inibição e o sintoma, uma vez que, na inibição, ocorrem limitações, restrições nas funções do eu, sobretudo em relação ao trabalho e ao amor. O sintoma, por sua vez, aparece como indício, substituto de uma satisfação pulsional que foi recalcada. No caso das inibições, Freud nos diz, “o eu renuncia a essas operações a fim de não entrar em conflito com o supereu” (p. 86). Podemos resgatar essa diferenciação privilegiando, no primeiro momento, o quadro de inibição apresentado pelos pacientes deprimidos. E concordamos igualmente com a idéia de que o conflito com freqüência não aparece logo, está como que adiado, encoberto por essa bruma de apatia e desvalorização que tomam a frente, paralisando ações e iniciativas e distanciando o sujeito de qualquer implicação com o seu desejo.
Se, como observou Ehrenberg, o conflito trazia inquietação e, de alguma maneira, impulsionava o sujeito ao movimento, o distanciamento do conflito está longe de apaziguá-lo. Na condição depressiva, é invadido por sentimentos de derrota, abandono e culpa. Se o desejo faz sempre um apontamento à falta, elemento indispensável ao movimento de busca, na condição depressiva que lhe é antagônica o sujeito fica referido ao lugar da falta em sua face dolorosa: paralisado, sem ânimo e sem esperança para realizar esse movimento.”
Sandra Edler, Luto e Melancolia - À sombra do espetáculo

“O pensador político Anthony Giddens (2002) deteve-se no estudo dessa questão ao pesquisar o efeito do regime social e político sobre o sujeito em diversos setores da vida, inclusive a intimidade. Vivemos hoje em uma sociedade cosmopolita global. Para esse autor, o capitalismo, em seus esforços para padronizar o consumo e formar gostos através da propaganda, desempenha um papel importante na ampliação do narcisismo. O consumismo difundiu-se numa cultura totalmente voltada às aparências. Observa ainda Giddens que o consumo promete as mesmas coisas que o narcisismo deseja — charme, beleza e popularidade —, através do consumo dos tipos certos de bens e serviços. Isso nos remete, segundo o autor, a um mundo cercado de espelhos nos quais buscamos a aparência de um eu socialmente valorizado.
Dessa forma, uma das conseqüências do capitalismo avançado seria uma inflação narcísica. Com uma oferta quase infinita de bens, o sujeito se deixa capturar por objetos de desejo, sonhos de consumo. O narcisismo, essa paixão da imagem, com os recursos oferecidos pela ciência hoje, atingiu sua culminância com a perspectiva (ou realidade?) do aparecimento de clones: a geração de outras criaturas à nossa imagem e semelhança. Dificilmente encontraríamos outra expressão tão extrema de narcisismo.
O pano de fundo do capitalismo avançado aliado à evolução da ciência e da tecnologia fomentam a idéia de superação da dimensão do impossível — o impossível hoje será possível amanhã. Esse novo mandamento interfere na dinâmica da castração, afetando a dimensão subjetiva constituída, como ressaltamos, em torno de uma falta. Com a redução da dimensão da impossibilidade, ampliou-se enormemente, a nosso ver, a dimensão da impotência, uma vez que, se tudo é possível, eu é que não posso. Essa condição, ao incidir sobre as estruturas neuróticas, tem um efeito devastador, uma vez que potencializa os sentimentos de inferioridade e destituição a elas inerentes.”
Sandra Edler, Luto e Melancolia - À sombra do espetáculo

“Na festa do capitalismo avançado em que vivemos, encontramos basicamente duas categorias de sujeitos: aqueles que aproveitam a festa até a última gota, se deixam consumir e seguem as prescrições do excesso em práticas hedonistas em que o prazer só pode ser obtido na ultrapassagem de medidas; e os que não se acham merecedores do convite ou não sabem como consegui-lo, os barrados no baile. Poderíamos dizer que essa dupla e extrema forma de expressão, em crescimento na contemporaneidade, seria, em grande parte, fomentada pelo pano de fundo do capitalismo avançado e, de formas diferentes, contribui para ampliar o distanciamento do sujeito em relação ao registro do desejo, ilustrando o crescimento da dimensão do gozo.
O conceito de gozo teve suas primeiras formulações em Freud, no início de seu percurso, referido ao gozo sexual, e mais adiante em sua obra, embora não com esse termo. Depois de 1920, Freud faz referência a determinadas condições em que o sujeito obtém satisfação com o próprio sofrimento. Com a segunda teoria pulsional e o advento da pulsão de morte, avança nesse terreno intermediário entre o prazer e a dor que se enlaçam e se confundem. Coube a Jacques Lacan, em sua releitura do texto freudiano, nomear e definir o gozo como um dos conceitos de maior fertilidade para a abordagem das condições de vida contemporâneas. Para uma pesquisa mais ampla das depressões, é importante mencioná-lo, na medida em que as depressões podem ser consideradas, hoje, uma modalidade narcísica de gozo.”
Sandra Edler, Luto e Melancolia - À sombra do espetáculo



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