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Luís
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No jardim da minha mãe
o meu ancinho junta as estrelas
que caíram enquanto eu cá não estive.
A noite está quente e os meus membros
exalam a proveniência verde,
flores e folhas,
o grito do melro e o bater do tear.
No jardim da minha mãe
piso, descalço, as cabeças das cobras
que avançam, a espreitar, pelo portão ferrugento
com línguas de fogo.
Dec 19, 2021 07:15AM
Na Terra e no Inferno

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Luís
Luís is on page 225 of 251
O dia despe a sua camisa.
Sobe, nu, para o canteiro do jardim
e chama a si os pássaros.
Nas poças negras
fica agachado o seu rosto vermelho,
que os camponeses despedaçaram.
A erva crava lanças de sombra
no meu cérebro ...

Na janela vizinha
está pousado um pássaro
como se fosse o guarda dos meus pensamentos,
até que o rude sono
me descalce os sapatos molhados.
Dec 19, 2021 06:15AM
Na Terra e no Inferno


Luís
Luís is on page 207 of 251
Os campos
não aceitam o meu nome,
os prados devolvem a minha vida
às cidades;
as árvores recolhem as raízes,
os ribeiros fecham a boca,
quando eu vou à aldeia,
à sepultura da minha mãe.
Ninguém me dá a caneca de cerveja
e me diz que a beba,
ninguém abre a sua cama
para mim.
Ah, se soubessem como
eu tenho frio!
Nas florestas e
por trás da casa
acusam-me de mentir.
Dec 19, 2021 05:00AM
Na Terra e no Inferno


Luís
Luís is on page 189 of 251
(...)

Procuramos os mortos
debaixo da erva e estendemos os dedos
e não achamos sossego, nem amanhã, nem depois de amanhã,
nem debaixo da árvore, nem por trás das colinas,
nem por azinhagas solitárias,
onde se sente o hálito do último vento de Março.
Dec 19, 2021 03:19AM
Na Terra e no Inferno


Luís
Luís is on page 167 of 251
«O mar é grande, inesgotáveis são também os desertos,
e não se sofre melhor longe destes lugares ...?»

Há já muito que não vivo da minha taberna.
Pai, mãe ficaram só como templo. O mundo
que inventei sustenta-me,
ainda que os versos e os restos da carne
tratem de pão e regresso, de vinho e fertilidades.
Dec 19, 2021 01:38AM
Na Terra e no Inferno


Luís
Luís is on page 147 of 251
Faz com que eu conheça
todos os peixes do mar
e todas as crianças da Terra
e saboreie o odor da manhã
e o odor da tarde.
Quero ouvir a linguagem dos peixes
e a linguagem do vento,
que se assemelha à linguagem dos anjos.
Quero ouvir a voz
da efemeridade!
Todas as vozes são as vozes da efemeridade.
Todas as vozes que alguma vez se ouviram.
Todas cantam efemeridade.
Tu também cantas efemeridade.
Dec 19, 2021 12:46AM
Na Terra e no Inferno


Luís
Luís is on page 127 of 251
A noite treme diante da janela e quer trespassar-me o coração,
gritando os nomes que eu infamei.
Oh, esses nomes que em cada cruz estão gravados e conspurcam o meu trabalho diário.

Sei que me hei-de levantar e destruir a minha cama
e com a cama os sonhos que cresceram no meu cabelo para setenta anos.

(...)
Dec 18, 2021 03:04PM
Na Terra e no Inferno


Luís
Luís is on page 109 of 251
Lá em baixo encontra-se a cidade,
tu não precisas de voltar,
porque o seu cadáver está coberto de flores

Amanhã há-de falar o rio.
Os montes, vagos, mal se conseguem divisar,
mas a Primavera traz já muito tarde as suas cores.

Lá em baixo encontra-se a cidade.
Nunca na memória os nomes te ficaram.
Dos bosques corre o vinho negro e denso.

(...)
Dec 18, 2021 12:45PM
Na Terra e no Inferno


Luís
Luís is on page 99 of 251
(...)
Não posso dormir, porque o circo veio parar
em frente da minha janela e muita gente acorre em alvoroço! Quero
esquecer
toda essa gente, porque a minha fome é grande ... e me faz regressar a
um país
que ainda ninguém viu, um país de verdes e soluçantes madrugadas,
um país que tem o meu nome,
uma manhã sem destruição ...
Dec 18, 2021 06:52AM
Na Terra e no Inferno


Luís
Luís is on page 77 of 251
(...)
Maquinarias! Os sinos mutilados dos teatros da guerra ...»
que anestesiam o nosso cérebro,
um serão que da noite goteja e sonha com encostas verdes que
soçobram,
com carros que transportam batatas,
um serão que para a solidão te impele,
para debaixo dos fracos membros,
para os jogos cegos da dor,
onde aos vícios a fome vai marcando o compasso ...
Dec 18, 2021 06:18AM
Na Terra e no Inferno


Luís
Luís is on page 53 of 251
O corvo grasna.
Por ele fui preso.
No seu grasnar tenho sempre
de errar pelo país.
O corvo grasna.
Por ele fui preso.
Ontem, pousado no campo, tremia de frio
e o meu coração com ele.
O meu coração está cada vez mais negro,
porque de asas negras se encontra
coberto.
Dec 18, 2021 05:17AM
Na Terra e no Inferno


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