,

Psiquiatria Quotes

Quotes tagged as "psiquiatria" Showing 1-8 of 8
Abhijit Naskar
“Conscientizar sobre saúde mental não significa combater o estresse, ansiedade, depressão e outros problemas cotidianos de saúde mental, mas sim modular conscientemente os hábitos que intensificam esses problemas. Assim que estiver no controle de seus hábitos, em vez de controlá-los, você estará automaticamente em uma forma muito melhor, tanto mental quanto fisicamente.”
Abhijit Naskar

Jean Genet
“Finalmente, o Presidente designou o perito em psiquiatria. Foi ele, verdadeiramente, que surgiu de um alçapão invisível dentro de uma caixa invisível. Ele tinha estado sentado no meio do público sem que alguém tivesse suspeitado dele; levantou-se e foi até a barra. Leu aos jurados seu relatório. Desse relatório alado caíam no chão palavras como: “Desequilíbrio... psicopatia... fabulação... sistema esplâncnico... esquizofrenia... desequilíbrio, desequilíbrio, desequilíbrio, desequilíbrio... equilibrista...” e de repente, pungente, sangrento: “O nervo simpático...” Sem pausar: “Desequilíbrio... semirresponsável... secreção... Freud... Jung... Adler... secreção...” Mas a voz pérfida acariciava certas sílabas, e os gestos do homem lutavam contra inimigos: “Pai, cuidado à esquerda, à direita”; certas palavras finalmente ricocheteavam na voz pérfida (como na língua do “pê” onde no meio das sílabas é preciso misturar palavras que são primárias ou banais: bapabapa, côpocôpo). O que se entendeu foi o seguinte: “O que é um malfeitor? Uma gravata que dança ao luar, um tapete epiléptico, uma escada que sobe de bruços, um punhal em marcha desde o começo do mundo, um vidro de veneno enlouquecido, mãos enluvadas na noite, o colarinho azul de um marinheiro, uma sucessão aberta, um conjunto de gestos benignos e simples, um trinco silencioso.” O grande psiquiatra leu por fim suas conclusões: “Que ele (Nossa Senhora das Flores) é um desequilibrado psíquico, sem afeto, amoral. Porém, como em todo ato criminoso, como em todo ato, existe um elemento volitivo que não é consequência da cumplicidade irritante das coisas. Em resumo, Baillon é parcialmente responsável pelo crime.”
Jean Genet, Our Lady of the Flowers

“Dizia que não fazia bem, que o psiquiatra tinha um acordo com as farmácias para extorquir dinheiro dos pacientes. Mas Paulo dormia muito melhor quando era extorquido (...).”
Ariel F. Hitz, Todas as mentiras que eu nunca quis contar

Adam Shatz
“Balvet publicara havia pouco um artigo intitulado “La Valeur humaine de la folie” [O valor humano da loucura] na Esprit, uma revista da esquerda católica que Fanon começava a ler com atenção. Descrevendo a loucura como uma “mina extraordinária”, talvez até “um novo modo de conhecimento”, Balvet a comparava tanto à conversão mística quanto à experiência de se apaixonar. Como o êxtase religioso e a paixão romântica, argumentava ele, a loucura era “um florescer, um novo nascimento” cujo Erlebnis — termo filosófico alemão para “experiência vivida” — tinha de ser entendido a partir do interior e reconstruído fenomenologicamente. O psiquiatra que reside “externamente à loucura” é como “o crítico de arte que pode facilmente nos dizer a data de uma pintura e nos contar sobre suas vicissitudes, mas que nunca nos devolve as cores”. Se a loucura era o “ressurgimento monstruoso e perturbador” de toda a vida de um paciente, ela “deve ser sentida” — sobretudo, em seu “momento de cristalização”, quando “a neurose transforma-se em psicose”. A loucura, para Balvet, era indissociável da condição humana. “A loucura está dentro de nós”, escreveu ele, “e nos revela.”
Erlebnis se tornaria um dos conceitos centrais de Fanon. E embora ele permanecesse cético quanto à descrição um tanto romântica que Balvet fazia da loucura, partilhava de sua perspectiva de que a doença mental tem muito a nos dizer sobre as sociedades em que vem à tona, e que sem um entendimento da experiência vivida do paciente, um diagnóstico completo é impossível. Aliás, Fanon parece ter compreendido isso muito antes de sua formação psiquiátrica ter sequer começado, graças ao trabalho que vinha fazendo entre os operários norte-africanos em Lyon — homens cujos rostos lhe eram familiares de suas experiências nos tempos de guerra.”
Adam Shatz, The Rebel's Clinic: The Revolutionary Lives of Frantz Fanon

Adam Shatz
“Fanon compartilhava a crença de Lacan de que a doença mental não podia ser reduzida a distúrbios neurológicos no cérebro; mesmo quando suas causas subjacentes eram orgânicas, as formas que ela assumia eram moldadas pelas relações sociais e familiares dos pacientes. Ele admirava a tese de 1932 de Lacan sobre a paranoia, que defendia que como a loucura não tinha uma origem única, ela deveria ser examinada à luz da sociologia e da psicanálise, bem como da neuropsiquiatria e da medicina. Em sua tese de doutorado de 1951 sobre a ataxia de Friedreich, uma doença hereditária neurodegenerativa que costuma ser acompanhada de sintomas psiquiátricos, Fanon chamou Lacan de “lógico da loucura”. Mas essa caracterização também era sutilmente zombeteira, e insinuava que Lacan fornecera uma racionalidade para o irracional.
Fanon nunca conseguiu chegar a endossar a fantasia surrealista da loucura como — na famosa expressão de Rimbaud — o “desregramento de todos os sentidos”. A doença mental, argumentava ele, não era o limite extremo da liberdade, mas sim uma “patologia da liberdade”. Essa alienação pulverizante do eu, Fanon acreditava, apresentava um obstáculo quase intransponível às relações normais com outros. A solidão forçada dos loucos, prisioneiros de seus delírios, não era romanceada por Fanon. O fato de ele repudiar a defesa lacaniana da loucura — o fato de enfatizar a vulnerabilidade, o sofrimento e a perda de liberdade experimentada pelos pacientes psiquiátricos, em vez da natureza “visionária” de sua percepção, ou o êxtase da alucinação — é um lembrete do valor que sempre atribuiu à autodeterminação. Ter um transtorno mental era abdicar de todo o controle sobre a própria mente e, portanto, do próprio corpo e destino. Para um descendente de escravizados de uma antiga colônia açucareira, era impossível confundir a condição de desintegração mental e física com emancipação de uma ordem social opressiva.”
Adam Shatz, The Rebel's Clinic: The Revolutionary Lives of Frantz Fanon

Adam Shatz
“Para Mannoni, o protótipo do colonizador não era um conquistador como Cristóvão Colombo, mas sim um náufrago, como Robinson Crusoe, que se encontrava cercado por homens e mulheres “selvagens”. Acometido por um senso de inferioridade, ameaçado por uma ansiedade de castração, ele busca estabelecer sua superioridade por meio de um ato de projeção psíquica, retratando o colonizado como seu oposto fraco, efeminado e inferior, de modo que pudesse voltar a se sentir um homem. Ao apresentar esse argumento, Mannoni se apoiava não em Freud mas em Alfred Adler, um membro dissidente do Círculo de Viena que defendia que o principal impulso entre os europeus não é a libido, mas a necessidade de superar um complexo de inferioridade enraizado nos medos da infância de vulnerabilidade física. Essa necessidade, sugeriu ele, resultou em uma afirmação compulsiva de superioridade, e uma perigosa vontade de poder. A dominação colonial, afirmava, oferecia aos colonizadores europeus perpetuamente inseguros um tipo de terapia coletiva, um meio de exorcizar seus medos de inferioridade e castração. Nativos desregrados pagavam o preço, nos atos de “fabuloso sadismo” por meio dos quais os europeus os lembravam de seu poder total.”
Adam Shatz, The Rebel's Clinic: The Revolutionary Lives of Frantz Fanon

Adam Shatz
“Graças à ingenuidade e à determinação de Balvet e seus colegas, Saint-Alban escapou do destino de outros hospitais psiquiátricos durante a guerra: a chamada extermination douce, ou “extermínio suave”. Entre 40 mil e 45 mil pacientes psiquiátricos — por volta de metade de todos os da França — morreram de fome, má nutrição, frio e outros males. As condições eram tão desesperadoras que alguns pacientes comiam capim, insetos, até as próprias mãos. Nem o governo de Vichy nem os ocupantes nazistas tentaram salvá-los; os que padeciam de doenças mentais eram considerados sub-humanos, como os judeus. (O panorama dos hospícios durante a guerra na França muitas vezes foi relacionado ao univers concentrationnaire dos campos.) Ao amealhar comida, treinar os pacientes para apanhar cogumelos comestíveis nas florestas próximas e por meio de intervenções astuciosas no mercado clandestino, os médicos de Saint-Alban transformaram o que com certeza se tornaria um necrotério em um símbolo de desafio e sobrevivência.”
Adam Shatz, The Rebel's Clinic: The Revolutionary Lives of Frantz Fanon

Austregesilo Carrano Bueno
“A necessidade que esses crônicos esquecidos têm de cigarro é algo também aterrador. Mordem-se, arranham-se por uma xepa... homens, numa disputa dessas! Seres humanos ou feras?
Em grunhidos lutam pelo grande prêmio: a guimba. Que os fal­ sos moralistas e insensíveis engulam suas falsidades, mas a gran­ de realidade é que seria um ato de caridade trazer cigarros para esses homens. Não trazer bolachinhas e doces. Eles necessitam de cigarros. Muitos podem achar absurdo. Mas vê-los agindo como cães agredindo-se por um osso na certa mudaria seu pare­ cer. Esses tipos de instituições poderiam ter convênios com fábricas de cigarros e os refugos de cigarros dessas fábricas pode­ riam ir para esses esquecidos. Mas a falsa moralidade de uma sociedade também falsa nunca iria permitir um convênio desse tipo. Preferem deixá-los como estão, escondidos, rasgando suas carnes por umas xepas de cigarros. Estaria mais de acordo com as regras da nossa moralidade: cigarro provoca câncer.”
Austregesilo Carrano Bueno, Canto dos malditos